Um povo que se sinta político e um político que se sinta povo

Jaqueline de Jesus, autora do livro: “Transfeminismo, teorias e práticas”, Marielle Franco (PSOL-RJ) e Virgínia Berriel, da Executiva Nacional da CUT (da esq. p/dir.)

Com este lema bastante significativo – Um povo que se sinta político e um político que se sinta povo -, estreou no Rio de Janeiro a Virada Política, um evento que se propõe a rever a política, a mostrá-la além das instituições, num formato inovador de debate, no qual os palestrantes falam direto com a plateia, e vice-versa, sem a presença de mediadores, denominado “Aquário”.

Organizado por um coletivo independente e apartidário, o encontro, que já teve três edições em São Paulo, foi criado em 2014 e é definido por Renato Flit, um dos coordenadores, como o maior evento de incidência política, que pretende se espalhar para todo o país, com a ideia de aproximar o povo.

Aquário: debate sem mediação

Uma programação recheada de temas que fervem na pauta nacional, em momento de absurdo retrocesso, deu a tônica da Virada Política ocorrida sábado último (11), no Viva Rio, na Glória. Segurança pública, política de gênero, igualdade racial, juventude, drogas, favela, reforma política, mídia e poder foram alguns assuntos tratados ao longo de todo o dia, das 9h30 às 22h30. Professores, sociólogos, jornalistas e representantes de movimentos culturais e sociais que atuam na cidade participaram da Virada, que teve também oficinas variadas, filmes exibidos em salas paralelas e quiosques com cardápio de refugiados.

Uma das mesas de abertura abordou a Política de gênero – como a questão influencia o exercício da democracia – debatida por Jaqueline de Jesus, autora do livro: Transfeminismo, teorias e práticas; Marielle Franco, vereadora pelo PSOL-RJ e Virgínia Berriel, da Executiva Nacional da CUT. Nas falas sobre a matéria, necessária e urgente, uma demonstração do trabalho árduo que vem sendo realizado em diversas frentes e do muito que ainda se precisa caminhar para vencer preconceitos, ignorância e fundamentalismos.

A luta travada cotidianamente na Câmara Municipal pela vereadora Marielle Franco é prova explícita dos obstáculos que se apresentam. Por ter incluído atenção às mulheres trans(gênero) no Projeto de lei, de autoria do vereador petista Reimont, propondo uma política de atendimento mais digna aos moradores de rua, teve o trâmite do processo paralisado há um mês. Contou que os fundamentalistas legislativos, numa primeira emenda, retiraram todo o artigo que tratava das mulheres que vivem nas ruas e, em outra emenda, retiraram a palavra gênero. “Somos sete mulheres entre 44 homens brancos, engravatados”, desabafa a socióloga, para quem, nesses números discrepantes, está perfeitamente colocada a questão de classe tão injusta no país.

Nas aulas de psicologia em que leciona para as mulheres negras da Baixada Fluminense, a professora Jaqueline de Jesus tenta desconstruir esse modelo ditado pelos “brancos engravatados”. Explica que é preciso participar da política e das discussões sobre gênero, sair da exclusão. “As mulheres trans, cuja identidade ainda é patologizada, sofrem a mesma lógica do machismo, do sexismo e também não têm acesso à política”, destaca. Para Jaqueline, a reação ao projeto na Câmara do Rio mostra a desumanização, a transfobia da sociedade. “Eu posso te queimar, te matar, você não vale nada, é o que se depreende da negação de identidade às trans”, enfatiza.

De outro ângulo, o machismo que impera na quase totalidade das relações de trabalho é ratificado pela jornalista e sindicalista Virgínia Berriel. Analisando como doloroso o momento em que vivem as mulheres na sociedade extremamente preconceituosa dos dias de hoje, ela afirma que, apesar de 50% delas ocuparem cargos importantes, ainda existe um machismo fortíssimo no meio sindical. “Dentro de uma federação há um enfrentamento com determinados temas, como o aborto, que delimita nitidamente o jogo de poder”.

Ela reforça a necessidade de as mulheres estarem sempre em pauta para que os homens não as esmaguem. E em alusão ao impeachment sofrido pela presidenta Dilma Rousseff, reflete: “É fundamental dar uma sólida estrutura para as mulheres chegarem ao poder. A gente luta 24 horas para sobreviver nesta sociedade machista”. No mundo da internet, onde o diálogo presencial foi substituído pelo whatsapp, e diante de uma política tão rasteira, ainda faz um alerta. “Precisamos resgatar o trabalho das portas de fábricas, o diálogo olho no olho com os trabalhadores, fazer o caminho de volta às bases”.

As três palestrantes foram unânimes em rechaçar a PEC 181 (proíbe o aborto até em caso de estupro), definida como cruel ao criminalizar as mulheres. Reconhecem que a política está distante das ruas e é preciso ocupá-las, provocar agitos, para tentar ao menos minimizar os danos das igrejas, como a Universal que elegeu o prefeito Crivela.

As posições de Marielle, Jaqueline e Virgínia encontraram total respaldo na plateia presente. Dentre a esmagadora presença feminina, três homens se manifestaram com inquestionável solidariedade. O morador da comunidade da Babilônia, no Leme, Álvaro Maciel, contou ser o autor do samba deste ano para a Marcha das mulheres negras. Com uma camiseta que divulgava a Roda de samba das Divas Negras, foi duro ao avaliar que “o estado democrático, interrompido no Brasil por um golpe, acolhe os resultados das lutas e o não democrático pode tornar uma reunião como aquela alvo até de um atentado”.

O astrólogo, Otávio Roscínio, morador da Urca, falou de outro tipo de atentado. Segundo seu relato, existe um movimento da Associação de moradores local, de classe alta em ampla maioria, para acabar com a já tradicional e simpática reunião nas muretas do bairro, por “estarem lotadas de gays”. O mesmo preconceito brutal é vivido no Complexo da Maré, como comentou Aristênio Gomes, morador do Parque União. “É preciso lembrar que na outra cidade também temos muita luta para reverter o preconceito”. Neste sentido, citou a importância dos aulões sobre LGBTs dados na Casa Nem, na Lapa, que acolhe e apoia transexuais, travestis e transgêneros.

“No Parque União não posso andar de mãos dadas com a minha companheira”, emendou a vereadora Marielle Franco, oriunda da região, afirmando ser importante referenciar as próprias histórias, como a dela, para fortalecer a luta e também amplificar a casa legislativa. “Temos que discutir menos, dialogar mais, disputar espaços institucionais, mas não só”, concluiu, convidando todos a participarem do debate Mulheres na Política, que acontece no próximo dia 30, na Associação Brasileira de Imprensa – ABI.

“Todos precisam viver no mesmo mundo e isso não acontece. As mulheres precisam acreditar que a sua vida vale tanto quanto a de qualquer outra pessoa”, incentiva Jaqueline de Jesus, sugerindo na despedida que discussões como as propostas pela Virada Política devem se multiplicar.
E Virgínia Berriel encerrou a palestra conclamando: “Temos que ir para as ruas. Nós mulheres temos que ocupar todos os espaços, se não alguém ocupa”.

A sugestiva resposta à pergunta que estampava um dos muitos painéis espalhados no espaço se revelou perfeita ao fim daquela mesa de debate. Qual é o seu sonho para a política? Empatia como prática e escuta como princípio.

 

 

Você pode gostar...