Uma rosa de sangue. De touros. Ciganos, guitarras, fuzis e um andaluz. Em verso, vento, cavalos, punhais viveu a vertigem da vida breve até a irremediável madrugada de 18 de agosto de 1936: Federico Garcia Lorca. A matança seguiu seu curso. A noite fascista seguiu seu curso. A vida seguiu seu curso. A eternidade de Federico, não. A eternidade apenas é. Condenada ao lado de fora do Tempo. A morte é frágil e se dissipa quando a palavra límpida como a vida, em verso se cruza. Aí acontece a poesia, porque a poesia será sempre isso: os impossíveis ao alcance da voz.

Os fascismos todos se parecem, nos ensinam a História do século 20 e reafirmam as duas primeiras décadas do século 21. Inicio este diálogo cheio de armadilhas, sem vislumbrar precisamente onde chegaremos ao final do percurso. Imaginei um labirinto, um diálogo submerso, num espaço habitado por peixes e pássaros repetidos em espelhos, minotauros cegos, relógios derretidos, desertos – tão ao gosto dos surrealistas – entre dois tempos mediados por um oceano, exílios definitivos como o de Luis Cernuda e quarenta anos de tirania.

Rafael Alberti, magnífico poeta e militante, contemporâneo de Lorca, escreveu em “Nocturno”:

“Cuándo desde el abismo de su idioma quisiera

gritar lo que no puede por imposible y calla.

Las palabras entonces no sirben,

son palabras…

Siento esta noche heridas de muerte, las palabras.”

Quase quarenta anos depois, sem conhecer os versos de Alberti, escrevi em papel de cigarros, numa cela escura, na esquina da Rua Tutoia com Tomás Carvalhal 1030, na Operação Bandeirantes (DOI-Codi do II Exército, S. Paulo):

“… A morte visita minha boca

num murmúrio sepultado e inútil.

Sinto enorme o peso das palavras.

O que pode o grito se não se perpetua?

As palavras estão gastas, mortas por dentro.”

Que terrível semelhança ditaria aos ouvidos dos poetas – de qualidades distintas, combatendo tiranias distintas, escrevendo em distintos idiomas – versos tão assombrosamente idênticos ecoando nos corredores desta tirania tropical ainda insepulta? O oficial franquista Milán Astray durante a guerra civil bradou diante de Miguel de Unamuno“Abajo la inteligencia!”. “Viva la muerte!”, canta o hino da Falange. Quantas vezes ouvi dos carcereiros: “Vocês são perigosos porque vocês pensam”.

André Malraux costumava dizer que não há um verdadeiro poeta que não tenha passado pela prisão. Excesso de ênfase, avalio. Prefiro ampliar essa reflexão para estendê-la a quem encarou a experiência profunda da dor e da paixão. Aqueles que viveram situações limites, em que o homem é posto nu diante de si mesmo e dos seus algozes; aqueles que manejam a palavra para fazer dela a carne, os ossos do sonho e da paixão que nos move, no breve percurso que cumprimos sobre a terra, esses são os verdadeiros poetas.

Lorca é um deles. Terá havido algum poeta cuja vida e morte sintetizam de maneira mais cristalina a tragédia do século 20? Na Europa e nas latitudes deste continente atormentado, herdeiro de belezas e massacres, em geral, produzidos pela presença colonial ibérica?

La luna, los caballos, el água, Cordoba, Sevilha, Granada, los gitanos, las plazas de toros, el amor, los cuchillos, la muerte: aí está Federico. Límpido. Moreno e claro. Imprevisto porque fundiu a força explosiva da poesia popular andaluz e conteve, com mão estrita de toureiro a expressão máxima do verso. Prefigurou, de algum modo, os delírios que povoaram a extraordinária aventura de criação literária da América Latina ao longo da segunda metade do século 20.

Federico trazia

“Uns olhos iluminados

como se tivesse tragado

as nascentes da lua.”

Há nele algo de insuportavelmente matinal que nos desarma. Gratuito, agreste, infantil. Diante da dor, da alegria e da paixão. Carrega no texto e no gesto a beleza e a brutalidade humanas. Não necessitou, por isso, de afastar-se do universo poético e buscar o artifício da retórica, tão frequente na poesia da esquerda daquele período. Nisso ele foi toureiro, sempre com a vida exposta ao limite extremo do risco, sempre tocando a fímbria da morte. Não a morte metafórica. A morte mesma, a densa morte irremediável. Crua. Sem retorno. Como aquela madrugada de agosto de 1936. Lorca não admite a banalidade da morte:

“Con un cuchillo,

con un cuchillito,

que apenas cabe en la mano,

pero que penetra fino

por las carnes asombradas

y que se para en el sitio

donde tiembla enmarañada

la oscura raiz del grito”.

A violência aqui é uma espécie de segunda natureza que preside as relações humanas.

A Espanha dilacerada convocou de dentro de suas veias uma geração de poetas para cantar à altura sua tragédia. Lorca, entre todos, foi buscar para cantá-la a raiz popular e a invenção mais delirante. Mário Hernández, na minuciosa introdução do Romancero Gitano (Alianza Editorial, Madrid,1981) aponta: “Lorca busca fundir o romance narrativo com o lírico, algo que na poesia espanhola culta não se havia conseguido em grau de beleza e misterioso cálculo que ele alcança”.

Trabalhou o farto material da tradição sem se render a ela:

“Thamar estaba soñando

pájaros en su garganta,

al son de panderos fríos

y cítaras enlunadas.

Su desnudo en el alero,

agudo norte de palma

pide copos a su vientre

y granizo a sus espaldas.

Thamar estaba cantando

desnuda por la terraza.

Alrededor de sus pies,

cinco palomas heladas.

Amnón, delgado y concreto,

en la torre la miraba,

llenas las ingles de espuma

y ocilaciones la barba.

Su desnudo iluminado

se tendía en la terraza,

con un rumor entre dientes

de flecha recién clavada.

Amnón estaba mirando

la luna redonda y baja,

y vio en la luna los pechos

duríssimos de su hermana.”

A desconcertante sensualidade, delicada e bruta porque direta e transparente do texto – e da vida – de Federico, exposta em Thamar y Amnón é um filete de luz – e de sangue – que percorre toda sua poesia e seu teatro atravessado pelos impulsos elementares geradores eternos dos conflitos humanos. O que faz deles uma obra que toca a eternidade.

Termino essa conversa cheia de recortes com um breve poema que, de algum modo visita temas de que se ocupou Federico:

Aluado

Aluado

(a lua dos cerrados

sangra delírios de pó

e prata antiga…)

quisera inundar

a geografia do teu colo

com o leito dos rios

que represo sob a pele.

Meus rios, esta noite,

Não fluem.

Cortam.

Como os rios sertanejos tragados

pela voracidade do chão.

Desses que apartam as águas.

Estancam.

Resultam num rosário de espelhos cegos,

separados pelo gume das pedras

ou pela avidez dessas areias

descendentes do fogo.

Aluado,

banho asas

de borboletas amarelas

para acender teus olhos

cerrados

pelas cortinas de rendas,

no portal da janela

por onde me vigias

nesta noite de Nossa Senhora das Candeias…”

(1993)

Entre dois fascismos que ora nos perseguem, ora se anunciam, em nome da liberdade, contra a face monstruosa da besta que emerge da decadência das sociedades ocidentais, a voz de Federico nos desafia como o Anjo da História, de Paul Klee.

Pedro Tierra (Hamilton Pereira) foi presidente da Fundação Perseu Abramo, criada pelo Partido dos Trabalhadores, em 1996. Nasceu no Estado do Tocantins, na Amazônia brasileira. Poeta e militante. Lutou na resistência à ditadura militar brasileira 1964/1988) e contra o neofascismo contemporâneo. Escreveu “Poemas do Povo da Noite” (No cárcere), publicado na Espanha “Poemas del Pueblo de la Noche”, Ed. Sigueme, Salamanca, e “Missa dos Quilombos” com Pedro Casaldáiga e Milton Nascimento, apresentada em Santiago de Compostela em 1992 sob o título de Missa da América Negra e “Pesadelo – Narrativas do Anos de Chumbo” entre outros.