Por Prof Lincoln Penna.
A Reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu o diploma de formatura ao seu ex-estudante da Faculdade de Economia, Stuart Angel Jones, assassinado covarde e barbaramente por militares em suas próprias dependências. Mais do que justa, oportuna e necessária, a decisão representa um ato de Reparação por parte do Estado brasileiro, e mais um passo na direção da democratização das relações entre Estado e Sociedade, passados décadas da vigência da ditadura militar.
Ao registrar uma importante decisão que se soma a outras da mesma natureza de modo a avançar o lento, porém indispensável processo de democratização, é preciso estarmos atentos e fortes diante de iniciativas que visam o retorno aos tempos antidemocráticos vividos. A adoção de escolas militares por parte de alguns governos estaduais, militarizando e estimulando alunos em sua fase de escolaridade à obediência absoluta diante de decisões por vezes autoritárias, é não apenas preocupante como enseja o comportamento da acomodação, logo da não-cidadania. Acresce a isso, estimula o alunado à disciplina imposta pelos instrutores militares, e incentiva o denuncismo a condutas de colegas fora dos padrões impostos tão ao gosto dos regimes autoritários.
Ao mesmo tempo em que crescem as cobranças para que os impunes crimes cometidos pelos agentes do Estado sejam revistos e seus autores vivos ou mortos sejam exemplarmente processados e julgados pelas atrocidades cometidas, coexistem atitudes saudosistas dos que buscam o retorno aos tempos mais tenebrosos convencidos que estão do apoio externo, tal com ocorreu por ocasião do golpe de 1964.
Trata-se, portanto, de uma situação extremada na qual vivemos, pois estamos diante de um cenário que precisa ser levado adiante em nome da democratização do Estado e da Sociedade, ainda fortemente arredia ao aprofundamento da democracia, e a presença já não mais mascarada das forças do retrocesso, na espreita de oportunidades para reaverem o conluio da militarização para gáudio dos revanchistas inconformados. Os mesmos que representaram o complexo militar-empresarial a serviço dos interesses do grande capital para a superação de suas crises crônicas e, por outro lado, tementes da ascensão das massas populares.
Que a justa homenagem prestada ao bravo militante da democracia Stuart Angel Jones represente não apenas mais uma reparação merecida, ainda que tardia, mas enseja um elo a mais da luta pelo aprofundamento dos valores e das práticas democráticas, antes que forças a serviço de interesses inconfessáveis venham a afrontar uma vez mais a soberania nacional e popular. Para que essa ameaça não se concretize mais do que nunca devemos fortalecer a crença que só a unidade em torno da democracia nos garantirá a superação das sequelas ditatóriais e das perdas humanas, cuja memória permanecerá para sempre.