“Querem destruir a engenharia nacional”, diz ex-governador da Bahia, Jaques Wagner

Camila Marins (jornalista da Fisenge)

FSM 2018, Salvador (BA) – Foto: Camila Marins/Fisenge

O ex-governador da Bahia, Jaques Wagner, afirmou que há um movimento no país de destruição da inteligência e da tecnologia nacional. “Querem transformar o Brasil em um mero fornecedor de commodities. Estamos vendo a nossa inteligência sair do país. Querem entregar, para destruir a engenharia”, afirmou, durante  debate no segundo dia (14/3) do Fórum Social Mundial (FSM), em Salvador. Uma saída para a crise, contudo, poderá vir depois de outubro (com as eleições), enfatizou.

Um dos exemplos de entreguismo é o anúncio da privatização da Chesf. Com o lema “Privatizar a Chesf é privatizar a água. Privatizar a água é privatizar a vida”, uma campanha promovida pelo Senge-BA e apoiada pela Fisenge estampou camisetas, anúncios e cartazes pelo estado. “A luta contra a privatização da Chesf é uma luta contra a entrega de recursos de infraestrutura diretamente ligados à segurança e à soberania nacional. Querem entregar nosso patrimônio para pagar dívidas internacionais”, pontuou a engenheira Elaine Santana, diretora da Fisenge e vice-presidente do Senge-SE. A Chesf é uma das 14 subsidiárias da Eletrobras.

Uma das principais preocupações é a preservação do Rio São Francisco, que contribui para a geração de energia, irrigação, pesca, transporte e consumo de água na região. “No Nordeste, a privatização da Chesf e das subsidiárias de água poderá significar a ampliação da restrição de acesso à água e energia, o que já é uma realidade em algumas regiões. No Brasil, a principal matriz de geração de energia é hidrelétrica”, explicou. Nesse sentido, engenheiros, profissionais de diversas áreas, movimentos sociais e sindicatos na organização do Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), cujo pré-lançamento aconteceu no dia 16/3, na tenda da CUT.

Defesa da engenharia nacional

Pela primeira vez no Fórum Social Mundial, Elaine Santana acredita que a única saída para a crise é a política. “O Fórum agrega variadas representatividades para discutir questões sociais e a engenharia está diretamente inserida nessas demandas. Não se pode pensar em transformação social sem engenharia. Por isso, é fundamental engajar debates como a engenharia pública, disponível para as classes sociais mais baixas”, destacou. Um exemplo é a oficina de assistência técnica para habitação de interesse social, realizada também no Fórum. “Não há como pensar uma cidade sem engenharia”, concluiu. A garantia de assistência técnica gratuita está assegurada pela lei 11.888/2008. No entanto, uma pesquisa de 2015, realizada pelo DataFolha a pedido do CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) – revelou que 54% dos brasileiros já construíram ou reformaram suas casas e, desse grupo, 85% realizaram obras sem orientação técnica.

O coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), José Maria Rangel, lembrou que até 2002 toda a engenharia do Brasil era contratada no exterior. “Por muitas décadas, perdemos muita mão de obra qualificada. A partir de 2002, voltamos a construir estaleiros e fortalecer uma política de indústria naval forte, gerando emprego e acúmulo tecnológico”, lembrou. O geólogo e diretor do Senge-BA, Manoel Barretto declarou que algumas das saídas é reforçar a engenharia e mudar o governo.

Diversidade

Entre prédios e os pavilhões da Universidade Federal da Bahia (UFBA), foi possível perceber uma maioria de jovens. O estudante de engenharia civil, Wellington Coutinho, reforçou que o Fórum Social Mundial é um espaço para voz que não são visíveis no cotidiano, principalmente na política. “Atualmente, o estigma de elitização dos cursos de engenharia tem diminuído por conta de políticas afirmativas. Precisamos trazer, aos poucos, os estudantes para o debate político-social, ainda mais nesse cenário de desemprego na engenharia. Os jovens querem participar dos espaços de decisão”, concluiu.

Fonte: Fisenge

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