Morre o geneticista italiano que provou que as raças não existem

Luigi Luca Cavalli Sforza – Foto: Luca Giarelli/CC BY-SA 3.0 /.Wikimedia.org

Luigi Luca Cavalli Sforza, autor de “Quem somos? História da diversidade humana”, morreu aos 96 anos, em Belluno, na Itália. Responsável pela elaboração do primeiro atlas genético da humanidade, seu principal legado científico foi a revelação de que as raças não existem.

Ao estudar os fatores que determinaram a diferente distribuição dos grupos sanguíneos nas populações e o cromossomo Y , comum a todos os machos biológicos, permitiu que as pesquisas com DNA confirmassem a teoria “Out of Africa”. Ou seja, que os primeiros hominídeos deixaram a África há 100.000 anos para colonizar o resto do planeta. A genética das populações produziu uma “árvore genealógica” da humanidade, mostrando que sempre foi formada por migrantes que se misturam.

Em sua pesquisa e em seus cerca de 300 artigos, Cavalli Sforza concluiu que as “raças” só existem na ideologia racista, sem qualquer base científica. Nos anos de desenvolvimento do Projeto Genoma Humano dos EUA, ele liderou o “Projeto Diversidade do Genoma Humano”, apresentado ao Senado daquele país em 1993: o estudo dos genomas das populações mais remotas da Terra demonstrou que os seres humanos são geneticamente bastante homogêneos, que “os grupos que formam a população humana não estão claramente separados, mas constituem um continuum.” Ao mesmo comitê do Senado declarou: “O racismo é um antigo flagelo da humanidade.”

Quando ganhou o Prêmio Balzan, em 1999, afirmou que “apesar de a população humana ter uma enorme variabilidade genética entre indivíduos, 85% da variação total acontece dentro de cada uma das populações. Portanto, não podemos utilizar para comparação das diferentes populações humanas a mesma medida de distância genética que serve para outras espécies vivas, nas quais é suficiente comparar um indivíduo de cada espécie “. Ou seja, embora seja geneticamente e até mesmo intuitivamente fácil distinguir as características de duas populações em dois continentes diferentes, não o é fazê-lo com dois indivíduos, como se poderia fazer com dois cães. “Podemos falar sobre população basca, mas nunca de indivíduos de raça basca. As diferenças genéticas não justificam, neste ou em qualquer outro caso, o conceito de raça, muito menos o racismo “, afirmou em uma entrevista em El País, em 1993.

O geneticista enfatizou nos seus trabalhos o elemento da cultura como mais importante mecanismo para justificar as diferenças entre as populações humanas. Dedicou, assim, muitos artigos sobre a interação entre genética e cultura, explicando que o período (evolutivamente falando) que a humanidade teve para evoluir, desde que um pequeno grupo de hominídeos deixou a África, não teria permitido a evolução de diferentes raças, apenas pequenas diferenças. No entanto, a cultura que, ao contrário dos genes, também pode ser transmitida horizontalmente – entre indivíduos – e não apenas verticalmente sobre si mesmo (do pai para as crianças) explica muito mais inovações e diferenças.

Cavalli Sforza nasceu em Gênova en 1922. Estudou medicina, primeiro en Turim, e depois em Pavia, quando seu professor de anatomia Giuseppe Levi foi expulso da universidade, acusado de desrespeitar as leis raciais do regime fascista, aprovadas em 1939. Licenciou-se em 1944. Já havia começado a pesquisar as relações sexuais das bactérias, mas foi o estudo da drosófila, aquela mosca da fruta, que abriu seu caminho para a genética.

Informações do El País: https://elpais.com/elpais/2018/09/03/ciencia/1535974124_908508.html?

Você pode gostar...