Inferno conceitual: um desabafo carioca

Rocinha (24/09/2017) – Foto: Vladimir Platonow/Agência Brasil

Lidia Pena

O prefeito é um dissimulado, omisso, que só conseguiu abrir a boca 15 horas depois de iniciada a guerra na maior comunidade local. O governador, de alcunha Pezão, é herança maldita de um mão grande, que, se a lei se fizer cumprir, há de apodrecer na cadeia. Um é magro, insosso; o outro, pesado, apático. Ambos desprovidos de competência, charme, ou qualquer identidade com o solo batizado por São Sebastião.

O caos nosso de todos os dias é agravado pela inépcia de mais uma autoridade, o secretário de Segurança, de quem quase ninguém sabe o nome e todos custam a crer que exista de fato. A tal ponto o doutor vacila, que teve a cabeça pedida por um integrante do governo federal mais desmoralizado da história do país.

Em meio a desmandos, despreparo e desespero, nos revoltamos com o inferno astral – ou seria conceitual? -, que se abateu sobre nós sem dó nem piedade. Sabíamos que a violência voltaria a explodir, uma vez que as verbas que poderiam ter bancado as intervenções do Estado, tão clamadas e necessárias a acompanhar a implantação das UPPs, e transformar de fato a realidade dos moradores do morro e do asfalto, foram certamente usadas para a aquisição de joias, carros, mansões e para aplicações em bancos suíços do casal sociopata Ancelmo/Cabral.

Tentamos atenuar a tempestade que se anunciava. Boa parte da população carioca lutou, ano passado, para colocar na prefeitura outro nome, outra visão, e foi atropelada por um exército de evangélicos, entre atrasados e reacionários, além dos equivocados que anulam seus votos achando dessa forma se isentar de qualquer responsabilidade. Derrota cruel já que a chance de expulsar o atual governador só virá em 2018.
Seguimos resistindo. Desprezamos os tiros dos fuzis e enaltecemos os disparos de belas vozes, do som de guitarras, teclados, baterias e percussões. Milhares de jovens e adultos encararam (especialmente na noite da última sexta-feira) a cidade alvejada e foram prestigiar os músicos brasileiros e estrangeiros na festa do rock. E quase todos os artistas pediram paz, em total sintonia com o público presente, que não perdeu a oportunidade, pela milionésima vez, de pedir também a saída de um “certo vampiro” que suga a nação, pendurado nos tetos usurpados de Brasília.

Este Estado e esta cidade têm um nome de respeito. Nome de Rio, que corre a buscar refúgio no mar, onde Iemanjá há de acariciá-lo e permitir que suas águas revoltas lavem a imundície responsável pelo mau cheiro que envolve, sem discriminação agora, as zonas Sul, Norte e Oeste. E há de fortalecer o canto, o samba e a poesia que sempre emanaram das esquinas de qualquer bairro com o privilégio de pertencer à grife Rio de Janeiro.

Na criatividade e alegria do povo estão as armas que sonhamos continuem a sustentar nossa resistência, a carimbar nossa história.

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