Editorial: A História do Brasil como ficção

Ilustração: Ana Terra

O Brasil é um país imenso e muito rico. Dividido em cinco grandes “ilhas” que podem ser visitadas. O restante do território são colônias de trabalho, sem maior interesse para o turista ou visitante estrangeiro. Por sinal, desaconselhamos fortemente, caso você consiga uma autorização, a sair das “zonas pacificadas” e entrar nas colônias de trabalho. Afinal, o que alguém faria em tais áreas?

O Brasil que interessa, que atrai e que vale conhecer, são suas cinco “ilhas”, que na verdade não são ilhas. São áreas fortificadas, com formidáveis praias, serviços hoteleiros incomparáveis, restaurantes de primeiro mundo, transportes públicos pontualíssimos, trens-bala importados do Japão, e segurança de nível escandinavo. Não há escolas ou universidades, posto que a população – cerca de oito milhões de habitantes – envia seus filhos para o Canada, Grã-Bretanha e EUA para estudar e os hospitais são restritos aos primeiros socorros, já que os aviões, jatos-pronto socorro, podem estar rapidamente nos grandes centros médicos do mundo.

Esse é o Brasil que deu certo.

Isso graças a homens de visão que tomaram, ao seu tempo, decisões corajosas. Remaram contra a maré e enfrentaram a maioria da população que não sabia o que queria ou para onde ia. Gente que votava errado.  Era um Brasil terrível: mais de 61 mil assassinatos em 2016; incapacidade do Estado em controlar extensas áreas populosas do seu território; com 1 estupro a cada 11 minutos; quase 3 milhões de crianças fora de sala de aula e, das que estavam em sala de aula, cerca de 42% são analfabetos “rudimentares”. Não se podia gastar tanto dinheiro para colocar essa gente toda – cerca de 204 milhões “nos trilhos”. Seria impossível.

Foi preciso então tomar decisões dramáticas: salvar o melhor do Brasil. Salvar a parte boa, pensante, aquela com DNA de vencedor, apontados pela meritocracia. Não se podia mais viver numa situação de guerra civil. Ou talvez ainda mais perversa, larval, subterrânea, não-dita, cotidiana: uma guerra de classes oculta, de assaltos e crimes, na qual as classes mais cultas, aquelas que valiam alguma coisa,eram obrigadas a estar blindadas em “bunkers” artificiais, primeiro de blindex, depois de alumínio, então, aço, depois eletrificadas, com guardas armados, câmaras de vigilância, alarmes sonoros, dispositivos diretamente ligados aos distritos policiais. Os carros, também blindados, saíam de garagens subterrâneas diretamente para as garagens subterrâneas de shoppings também blindados, prédios de escritórios guarnecidos de cercas e aeroportos, claro, super-blindados. Alguns faziam os mesmos trajetos em helicópteros, mais seguros, e evitavam os intermináveis engarrafamentos de horas e horas onde uma massa de milhões de trabalhadores se amontoavam em ônibus e trens para fazer diariamente 30 quilômetros até o seu local de trabalho.

Um trabalho precário, com uma jornada alongada e uma aposentadoria duvidosa, claro, posto não terem se esforçado o necessário.

O único emprego garantido, e assim mesmo em termos, no Brasil, é na polícia, a pública, em extinção, ou nas imensas corporações de segurança pública organizadas, cada uma delas em torno de uma igreja, única instituição capacitada a alistar e empregar jovens para a função de combater os milhares de homens alinhados, por sua vez, a facções criminosas. O comércio ilegal de drogas, cigarros, bebidas, remédios, água, enriquece as facções além, é claro, dos serviços que as populações das áreas “não-pacificadas” devem pagar: gás, sinal de TV, transporte urbano, serviço funerário, justiça, festas.

Ninguém sabe como as facções criminosas compram as armas modernas que matam as forças de segurança que garantem as “ilhas” do “Novo Brasil”.

Mesmo este pródigo negócio de segurança pública, monopólio das igrejas “certificadas’ pelo Estado, que aos poucos deixou de ser laico, é difícil: os homens da polícia morrem como moscas sob fogo do crime organizado. Como a oferta de substitutos é grande, os seus superiores não se importam nem um pouco com tais mortes e nada fazem para  melhorar as condições de trabalho, a segurança, os serviços de prevenção e de Inteligência da segurança pública: afinal, a “carne preta é a carne mais barata do mercado!”.

Em alguns pontos da cidade erguem-se “portões” de acesso: aí, como foi uma vez em Belfast, na Cisjordânia, em Berlim ou Bagdá se decide quem passa para a “Zona Azul”, pacificada e quem é “restringido” e deve ser contido nas “zonas não pacificadas”.

Mais além, ficam os fornos crematórios dos campos de concentração para doentes de aids, febre amarela, tuberculose, tifo, hepatite, dengue e dos muitos velhos, dos inúteis, dos associais, dos preguiçosos, dos alcóolatras e dos pervertidos (conforme a nova lei  de “Prevenção da Moralidade” do Ministro da Raça”, o Dr. Bols).

As pessoas nem se lembram bem quando o sistema da “Nova Ordem” começou. Afinal, faz muito tempo que todos os livros foram incinerados em uma imensa pirâmide no centro de cada cidade do Brasil. Queimaram-se os livros. Ninguém queria, de fato, chegar a esse extremo. Afinal, livros são muito decorativos. Hoje só se permite a Bíblia. Assim mesmo, a “Nova Bíblia’ reformada pelo sínodo dos Reverendos Cri-Mala. Só se queria uma “Escola sem Partido”. Mas, os professores insistiram em dar aulas subversivas. Insistiram em ensinar o errado. Ora, eram aulas exageradas sobre um passado a ser esquecido; escravidão, ditadura e o tal do“golpe”.

Depois ainda corrompiam as crianças com “ideologia de gênero”, ensinando sexo: falavam em coisas ensinadas por mulheres-bruxas como Simone Beauvoir e uma tal Judith Butler, imagine uma chamada Melanie Klein que dizia que crianças tinham sexualidade! Havia desrespeito à Bíblia: insistiam em Charles Darwin e até que a Terra era redonda, como se fosse possível. Claro, que cairíamos todos lá do alto… Uma vez, um professor chegou a contar uma fábula de magia negra sobre um feiticeiro chamado Harry Potter! Ah, claro, foram proibidos todos os filmes que não fossem Disney e Os Trapalhões, todos autorizados pelo Departamento de Censura pela Moralidade da Nação do Dr. Culkk.

Foram fechados também os museus. Havia muita pornografia. Coisas estranhas, Arte degenerada, se é possível dizer que aquilo era arte. Até os nomes dos artistas dava nojo: Varejão! Ficou bem melhor: todos os museus viraram franquias da Disney, pagamos com arrendamentos do Pré-Sal! Tudo organizado pelo Departamento de Diversão Moral do Dr. FelizAnus.

Mas, quando mesmo a “Nova Ordem” começou? Acho que existe um “marco zero” na estátua dos líderes fundadores – Dr. Temer, Dr.Aécio, Dr. Gilmar, os “Pais Fundadores da Nova Ordem”: ah, é isso: a “Nova Ordem” começou no dia 24 de janeiro de 2018.  

 

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