Desemprego em postos mais qualificados ameaça base de conhecimentos da indústria

De acordo com os dados da PNAD Contínua, pesquisa do IBGE que acompanha mensalmente o número de empregos no pais, não há no mercado de trabalho indicador consistente que mostre sequer um ensaio de saída da recessão ou de recuperação econômica, avalia o coordenador de Trabalho e Rendimento, Cimar Azeredo Pereira. Segundo ele, mesmo profissionais de maior qualificação, geralmente poupados em tempos de crise, estão sendo demitidos.

“Nas crises, a resposta do mercado para destruir postos de trabalho é muito rápida; para retomá-los pode demorar até seis, oito meses”, diz. “Com um telefonema, você uma fecha um obra inteira. Para contratar, é preciso, primeiro, recuperar a segurança de investir, recrutar as pessoas. E à medida que a crise se aprofunda, o tempo de retomada também aumenta.” O que acontece, explica o técnico do IBGE, é que os profissionais vão perdendo suas especializações, num processo de desconstrução da base tecnológica que requer um conhecimento mais aprofundando. Para este empregado voltar ao mercado, será necessário, por exemplo, um novo período de treinamento.

O impacto do corte de pessoal, segundo Cimar Azeredo, foi inicialmente disfarçado pela robotização, tanto na indústria quanto na agricultura. “Mas quando você observa que esse limite está sendo ultrapassado, há um problema”, afirma. “A indústria é o segmento mais organizado, mais formalizado do país, com uma linha de escolaridade maior. E as empresas tendem a permanecer com a mão de obra mais especializada, mais difícil de encontrar, esperando  a crise passar. Mas se ela demora muito, têm que dispensar. Agora, até esses coringas estão caindo.”

Entre 2013 e 2014, ele lembra que já se podia perceber o início de uma redução expressiva no número de trabalhadores com carteira de trabalho – “o primeiro sinal de que o mercado vai se desarrumar”. Atualmente, ele informa que 60% dos trabalhadores são empregados, dos quais 70% no setor privado têm carteira assinada. Na sua opinião, é um índice baixo. “São 30% do total de trabalhadores que deveriam estar contribuindo com Previdência, recolhendo FGTS, tendo acesso a direitos, e não têm. É muita coisa.”

No auge da crise, no terceiro ou quatro trimestre do ano passado, o IBGE registrou a perda impressionante de 2 milhões de empregos com carteira, com grande impacto econômico e social. “Isso significa perda de estabilidade para o trabalhador. Se você é uma pessoa que não tem fiador, reserva de recursos, o seu passaporte para conseguir um crédito é a carteira de trabalho, o seu contracheque”, observa Azeredo.

De acordo com estimativas feitas pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (Senge-RJ), para cada engenheiro demitido, perde-se outros 11 postos na indústria. Mas a indústria, quando demite, também atinge muitos outros trabalhadores, que são terceirizados e vinculados indiretamente a ela – inclusive na construção civil.

Antecedentes
De 2008 a 2012 houve o “boom” da carteira de trabalho, quando a formalização aumentou de forma expressiva, e alcançou 80% dos trabalhadores, em alguns estados, segundo Azeredo. Na opinão dele, esse índice ainda está abaixo do ideal, mas aumentou muito, e essas pessoas, quando foram demitidas em 2014, puderam contar com uma rede de proteção que inclui as verbas rescisórias e o seguro-desemprego. “Percebemos então a criação de postos de trabalho próprio, o que disfarçou a queda da população ocupada. Houve uma transferência para empreendimentos próprios, que poderia escamotear a crise, se ela não durasse. Mas a crise continua no mercado de forma agressiva.”

Os dados recentes de emprego do IBGE, nesse sentido, não são bons. Em janeiro de 2107, os números indicaram um aumento  da desocupação que, no entanto, já era esperada – devido à maior atividade econômica, própria do mês de dezembro. “Mas esse avanço da desocupação já veio em intensidade além da esperada”, diz Azeredo. No trimestre encerrado em fevereiro, o desemprego atingiu 13,547 milhões de pessoas, ou 13,2%, maior número já registrado desde o início da série histórica do IBGE, em 2012, e recorde também na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). São mais 3,176 milhões de desempregados no período de um ano.

Em 2002, o Brasil também enfrentou uma crise, com demissões e retração de investimentos, agravada pela insegurança inicial do setor privado com a eleição de Lula à Presidência. O novo governo apostou em um conjunto de medidas para superar os problemas, que incluíram recuperação do salário mínimo, implantação de programas sociais, e outras ações para colocar dinheiro na mão do trabalhador – segmento que efetivamente o gasta no mercado, impulsionando o mercado. O poder de compra do trabalhador não só reduziu a desigualdade, como movimentou a economia. No quarto trimestre de 2004, a crise já havia se dissipado.

A estratégia adotada então era radicalmente oposta à do atual governo em exercício, marcada por políticas de contenção de recursos: a PEC limitando os gastos públicos, o projeto de lei da terceirização, que deve aumentar a informalidade e a insegurança no trabalho, corte de programas sociais, renegociação com Estados condicionada à redução de despesas estaduais, entre outras.

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