Artistas do Theatro Municipal se apresentam na rua, em defesa da cultura

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

“A cultura é a alma de uma nação”. Com esta palavra de ordem em uma grande faixa estendida à porta do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, artistas e funcionários da administração de um dos mais importantes teatros do país fizeram nesta terça-feira (9), ao meio dia, um espetáculo para arrecadar doações de alimentos ou dinheiro, e mais uma vez protestar contra o abandono da cultura pelo governo do Estado. Como os demais servidores estaduais, os empregados do teatro não receberam os dois últimos salários, nem o 13º de 2016. E não há previsão para o pagamento.

A convocação para o ato, feita por vídeo nas redes sociais, mobilizou a população e lotou calçada e rua em frente ao teatro, na Cinelândia, desviando o trânsito e levando às lágrimas tanto artistas em cena quanto plateia, na mesma agonia pelo descaso das autoridades públicas com a cultura e com as pessoas – na cidade, no Estado e no país.

Solidariedade irrestrita e muitos aplausos aos integrantes do Coro, do Corpo de Balé e da Orquestra Sinfônica do Theatro, que se apresentaram na escadaria e nas sacadas do prédio. Todos, de camiseta preta – registrando os 106 anos de existência do teatro –, transformaram o luto em arte e realizaram um espetáculo comovente e insubordinado.

A primeira solista, Déborah Ribeiro, a única de figurino branco, dançou trecho de A Morte do Cisne. Difícil não chorar. O espetáculo abriu com o Hino Nacional e fechou com Cidade Maravilhosa. No repertório, Carmina Burana, do alemão Carl Off, a Habanera, da Carmen, de Bizet, Jesus alegria dos homens, de Bach, entre outras peças.

Bailarinas consagradas e atuais diretoras artísticas do Municipal, Cecilia Kerche e Ana Botafogo fizeram questão de afirmar que “cultura e educação são a base de uma nação”. Em meio aos gritos de “Fora Temer” e “fora Pezão, ladrão!”, vindos da plateia que se espremia na rua, também lembraram a frustração de não poderem estar, artistas e público, dentro do Theatro, onde é o seu lugar. A crise financeira já afeta a programação, com espetáculos cancelados ou encenados com apenas o básico. A ópera Norma, de Vincenzo Bellini, foi apresentada na primeira semana de maio, mas em forma de concerto.

“Estamos aqui para dar voz às nossas angústias”, afirmou Ana Botafogo.”Todos juntos somos a voz desse teatro. Estamos aqui para mostrar do que somos capazes, trazer alegria e encantamento para vocês. Mas isso está muito difícil, só temos tristeza, angústias e muita incerteza. Educação e cultura são primordiais, não há um país e uma cidade sem educação e cultura.”

Segundo o presidente do Sindicato dos Funcionários do Theatro Municipal, Pedro Olivero, há funcionários sem dinheiro até para ir trabalhar, tendo que pedir emprestado para comprar comida. Durante o ato, os artistas homenagearam o barítono Leonardo Páscoa, do coro da Orquestra Sinfônica do teatro, que faleceu no domingo (7), aos 42 anos, de infarto. Ele era um dos servidores com salários atrasados.

Um manifesto assinado pelas várias categorias que trabalham no teatro foi distribuído entre os espectadores, com orientações para aqueles que desejem continuar colaborando com doações: “A arte é necessária à vida, é direito básico de todo o ser humano e essencial para uma sociedade desenvolvida. Apoie a nossa luta por dignidade e condições de trabalho. Antes dos espetáculos e diariamente estaremos arrecadando as doações na recepção da Av. Almirante Barroso, 14/16 – Centro – RJ. Contato: Sintac/RJ- Sindicato dos Trabalhadores em Entidades Públicas da Ação Cultural do Estado do Rio de janeiro – Tel/fax: (021) 2532-2748 – sintacrj@hotmail.com”

 

 

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